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Ficha Técnica

Título: Herança

Título original: Inheritance

Texto ©

Ilustração da capa © John Jude Palencar, 2011

Tradução: Leonor Marques

Revisão: ASA II

ISBN: 9789892312187

Edições ASA II, S.A.

uma editora do Grupo LeYa

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Esta é uma obra de ficção. Os nomes, personagens, locais e incidentes nela

mencionados são produto da imaginação do autor, ou foram utilizados de uma

forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais vivas ou mortas,

acontecimentos ou locais é pura coincidência.

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Como sempre, este livro é dedicado à minha família

E também aos sonhadores de sonhos:

os muitos artistas, músicos e contadores de histórias

que tornaram esta viagem possível.

A História de Eragon, Eldest e Brisingr

No início existiam dragões: criaturas altivas, ferozes e independentes. As escamas eram como jóias e todos os que contemplavam essas criaturas desesperavam, pois a sua beleza era grandiosa e assustadora.

Durante muitas eras os dragões viveram sozinhos em Alagaësia.

Depois, o deus Helzvog criou os vigorosos e robustos anões de pedra do Deserto de Hadarac.

E ambas as raças guerrearam-se bastante.

A seguir os Elfos viajaram pelo mar prateado, até Alagaësia, e também eles guerrearam com os dragões. Porém, os Elfos eram mais fortes que os Anões e poderiam ter destruído os dragões, tal como estes os poderiam ter destruído a eles.

Por isso os dragões e os Elfos fizeram tréguas, selando um pacto entre si, e dessa aliança criaram os Cavaleiros do Dragão, que mantiveram a paz em Alagaësia, durante milhares de anos.

Entretanto os humanos viajaram por mar até Alagaësia, tal como os Urgals e os Ra’zac – os caçadores das trevas que devoram carne humana –, e os humanos também se reuniram ao pacto com os dragões.

Depois, Galbatorix, um jovem Cavaleiro do Dragão, revoltou-se contra a sua própria espécie, escravizou Shruikan, o dragão negro, e convenceu treze outros Cavaleiros a seguirem-no. Os treze ficaram conhecidos como os Renegados.

Galbatorix e os Renegados derrotaram os Cavaleiros, incendiaram-lhes a cidade, na ilha de Vroengard, e chacinaram todos os dragões que não estavam do seu lado, poupando apenas três ovos: um vermelho, outro azul e um verde. Além disso, procuraram resgatar o maior número possível de Eldunarí – o coração dos corações –, que continha o poder e a mente dos dragões, uma vez separado da sua carne.

Durante oitenta e dois anos, Galbatorix reinou entre os humanos como senhor absoluto. Os Renegados morreram, mas ele não, pois a sua força era a força de todos os dragões e ninguém poderia derrubá-lo.

No octogésimo terceiro ano do reinado de Galbatorix, um homem roubou o ovo de dragão azul do seu castelo e entregou-o aos cuidados de um povo que ainda lutava contra Galbatorix e dava pelo nome de Varden.

O elfo Arya viajou com o ovo entre os Varden e os Elfos, à procura de um humano ou de um elfo para este chocar e assim se passaram vinte e cinco anos.

Depois, ao viajar para a cidade élfica de Osilon, um grupo de Urgals atacou Arya e os seus guardas. Os Urgals estavam acompanhados do Espetro Durza: um feiticeiro possuído pelos espíritos que invocara, para obedecerem às suas ordens, que se tornara o mais temível criado de Galbatorix, após a morte dos Renegados. Os Urgals mataram os guardas de Arya, porém, antes que a capturassem, Arya usou magia e enviou o ovo para alguém que esperava poder protegê-lo.

Mas o feitiço correu mal.

E foi assim que Eragon, um órfão de apenas quinze anos, descobriu o ovo nas montanhas da Espinha e o levou para a quinta onde vivia com o tio, Garrow e o primo, Roran. O ovo chocou para Eragon e ele criou ali o dragão. O seu nome era Saphira.

Entretanto, Galbatorix mandou dois Ra’zac procurar o ovo para o resgatar, e estes mataram Garrow e incendiaram a casa de Eragon. Galbatorix escravizou os Ra’zac que já não eram muitos, na altura.

Eragon e Saphira partiram para se vingarem dos Ra’zac, acompanhados de Brom, o contador de histórias, que fora também um Cavaleiro do Dragão, antes da queda dos Cavaleiros. Era a Brom que o elfo Arya planeara enviar o ovo azul.

Brom ensinou muito a Eragon sobre o manejo de espada, magia e honra e ofereceu-lhe Za’roc, que fora em tempos a espada de Morzan, o primeiro e mais poderoso dos Renegados. Mas os Ra’zac mataram Brom, assim que os encontraram, e Eragon e Saphira escaparam graças à ajuda do jovem Murtagh, filho de Morzan.

Durante as suas viagens, o Espetro Durza capturou Eragon na cidade de Gil’ead, mas Eragon conseguiu fugir e, ao fazê-lo, libertou Arya da sua cela. Arya fora envenenada e estava gravemente ferida, por isso Eragon, Saphira e Murtagh levaram-na para os Varden, que viviam entre os Anões, nas Montanhas Beor.

Arya foi tratada e Eragon abençoou uma bebé chorona que dava pelo nome de Elva. Ele abençoou-a para a proteger do infortúnio, mas pronunciou mal as palavras, amaldiçoando-a sem dar conta, o que a forçou a tornar-se um escudo contra o infortúnio dos outros.

Pouco tempo depois, Galbatorix mandou um grande exército de Urgals atacar os Anões e os Varden. Foi na batalha seguinte que Eragon matou o Espetro Durza. Durza, porém, feriu Eragon gravemente nas costas, fazendo-o padecer de dores horríveis, apesar dos feitiços dos curandeiros dos Varden.

No meio da sua dor ele ouviu uma voz, que lhe disse:

Vem até mim, Eragon, vem até mim, pois eu tenho respostas para todas as perguntas que fizeres.

Três dias mais tarde, o líder dos Varden, Ajihad, sofreu uma emboscada e foi morto pelos Urgals, sob as ordens de dois feiticeiros gémeos que entregaram os Varden a Galbatorix. Os gémeos raptaram também Murtagh, que levaram em segredo até Galbatorix. Mas Eragon e todos os Varden pensaram que Murtagh tinha morrido, pelo que Eragon ficou bastante pesaroso.

Nasuada, a filha de Ajihad, tornou-se líder dos Varden.

De Tronjheim, o centro de poder dos Anões, Eragon, Saphira e Arya viajaram para a floresta de Du Weldenvarden, a Norte, onde viviam os Elfos. O anão Orik, sobrinho de Hrothgar, o rei dos Anões, acompanhou-os.

Em Du Weldenvarden, Eragon e Saphira conheceram Oromis e Glaedr – o último Cavaleiro e dragão ainda livres – que há um século viviam escondidos, na esperança de poder ensinar a geração seguinte de Cavaleiros do Dragão. Eragon e Saphira encontraram-se também com a Rainha Islanzadí, soberana dos Elfos e mãe de Arya.

Enquanto Oromis e Glaedr treinavam Eragon e Saphira, Galbatorix mandou os Ra’zac e um grupo de soldados a Carvahall, a aldeia natal de Eragon, desta vez para capturar o seu primo Roran. No entanto, Roran escondeu-se e eles não o teriam encontrado se não fosse o ódio do talhante Sloan, que ao matar uma sentinela permitiu que os Ra’zac entrassem na aldeia, apanhando Roran desprevenido.

Roran conseguiu desembaraçar-se deles, mas os Ra’zac levaram a sua amada Katrina, filha de Sloan. Depois disso, Roran convenceu os aldeões a partirem com ele. Viajaram pelas montanhas da Espinha até à costa de Alagaësia e, a seguir, até à região de Surda, a Sul, que ainda não estava sob o domínio de Galbatorix.

O ferimento nas costas de Eragon continuava a atormentá-lo, mas durante a Celebração do Juramento de Sangue dos Elfos, onde estes comemoravam o pacto celebrado entre Cavaleiros e dragões, o dragão espectral que os Elfos invocavam no encerramento das festividades curou o ferimento de Eragon, concedendo-lhe, também, a mesma força e rapidez dos Elfos.

A seguir, Eragon e Saphira voaram para Surda, para onde Nasuada tinha conduzido os Varden a fim de lançarem um ataque contra o Império de Galbatorix. Aí os Urgals aliaram-se aos Varden, alegando que Galbatorix lhes confundira a mente, pretendendo vingar-se dele. Entre os Varden, Eragon voltou a encontrar Elva, que crescera prodigiosamente depressa em consequência do feitiço. O bebé chorão dera lugar a uma rapariguinha de três ou quatro anos, com um olhar assustador, pois sentia a dor de todos os que a rodeavam.

Não muito longe das fronteiras de Surda, na escuridão das Planícies Flamejantes, Eragon, Saphira e os Varden travaram uma longa e sangrenta batalha contra o exército de Galbatorix.

Durante a batalha, Roran e os aldeões reuniram-se aos Varden, assim como os Anões que os tinham seguido desde as Montanhas Beor.

Porém, uma figura de armadura polida, montada num dragão cintilante, vermelho, surgiu a Este e matou o rei Hrothgar com um feitiço.

Eragon e Saphira lutaram com o Cavaleiro e com o dragão vermelho, descobrindo que este era Murtagh, ligado a Galbatorix por juramentos impossíveis de quebrar, e que o dragão era Thorn, o segundo ovo a chocar.

Murtagh derrotou Eragon e Saphira com a força do Eldunarí que Galbatorix lhe dera, mas deixou-os partir, porque ainda nutria alguma amizade por Eragon, e porque eram irmãos, ambos filhos de Selena, a consorte favorita de Morzan – como ele próprio explicou a Eragon.

Murtagh despojou Eragon de Zar’roc – a espada do seu pai – e partiu com Thorn das Planícies Flamejantes, tal como o resto das tropas de Galbatorix.

Quando a batalha terminou, Eragon, Saphira e Roran voaram para Helgrind, a sombria torre de pedra, que era o esconderijo dos Ra’zac. Aí mataram um dos Ra’zac e os seus odiosos progenitores – os Lethrblaka –, resgatando Katrina de Helgrind, e nas celas Eragon descobriu o pai de Katrina, cego e moribundo.

Eragon pensou em matar Sloan pela sua traição, mas acabou por afastar essa ideia. Em vez disso, fê-lo mergulhar num sono profundo, dizendo a Roran e a Katrina que o pai dela morrera. Depois pediu a Saphira que levasse Roran e Katrina de regresso aos Varden, enquanto ele perseguia o último Ra’zac.

Sozinho, Eragon matou o Ra’zac e levou Sloan de Helgrind. Depois de muito pensar, Eragon descobriu o verdadeiro nome de Sloan na língua antiga, a língua do poder e da magia, e, através deste, forçou Sloan a jurar que nunca mais voltaria a ver a filha. Por fim, mandou-o viver com os Elfos. O que Eragon não disse ao talhante foi que os Elfos lhe devolveriam a visão se ele se arrependesse da traição e do assassínio que cometera.

Arya encontrou Eragon a meio caminho dos Varden e os dois regressaram juntos, a pé, através de território inimigo.

Nos Varden, Eragon soube que a Rainha Islanzadí enviara doze feiticeiros elfos, comandados por um elfo chamado Blödhgarm, para o proteger a ele e a Saphira. Eragon tentou remover a maldição de Elva, mas ela continuou a sofrer com a dor dos outros, embora já não se sentisse compelida a salvá-los do seu sofrimento.

Roran casou com Katrina, que estava grávida, e Eragon sentiu-se feliz, pela primeira vez, desde há muito tempo.

Depois Murtagh, Thorn e um grupo de homens de Galbatorix atacaram os Varden. Eragon e Saphira conseguiram contê-los com a ajuda dos Elfos, mas Eragon e Murtagh não conseguiram derrotar-se. Foi uma batalha difícil, pois Galbatorix encantara os soldados para que estes não sentissem dor. Os Varden sofrerem muitas baixas.

Depois disso, Nasuada ordenou a Eragon que visitasse os Anões em representação dos Varden, enquanto eles escolhiam o novo rei. Eragon estava relutante em ir, pois Saphira teria de ficar para proteger o acampamento dos Varden, de qualquer forma ele acabou por ir.

Roran serviu o exército dos Varden e subiu de posto, ao revelar-se um guerreiro hábil e um líder.

Enquanto Eragon estava com os Anões, sete deles tentaram assassiná-lo, e uma investigação revelou que era o clã Az Sweldn rak Anhûin que planeara o ataque. Contudo, a reunião de clãs prosseguiu, Orik foi escolhido como sucessor do seu tio e Saphira reuniu-se a Eragon para assistir à coroação, durante a qual cumpriu a promessa de reparar a adorada estrela de safira dos Anões, que quebrara no combate de Eragon com o Espetro Durza.

Eragon e Saphira regressaram a Du Weldenvarden, onde Oromis revelou ao cavaleiro a verdade acerca da sua herança: Eragon não era filho de Morzan, mas de Brom, embora ele e Murtagh partilhassem a mesma mãe, Selena. Oromis e Glaedr explicaram também o conceito do Eldunarí, que um dragão poderia decidir expulsar de dentro de si, em vida, embora exigisse uma grande cautela, pois quem possuísse o Eldunarí poderia usá-lo para controlar o dragão de onde ele provinha.

Enquanto estava na floresta, Eragon decidiu que precisava de uma espada para substituir Zar’roc. Ao recordar o conselho que recebera de Solembum, o homem-gato, durante as suas viagens com Brom, Eragon foi até junto da senciente árvore de Menoa, em Du Weldenvarden. Falou com a árvore e esta aceitou ceder-lhe o aço brilhante que tinha sob as raízes, por um preço que não chegou a definir.

Depois, Rhurön, a ferreira elfo – que forjara todas as espadas dos Cavaleiros – trabalhou com Eragon na sua nova espada. A espada era azul e Eragon chamou-lhe Brisingr – “fogo” –, mas a lâmina irrompia em chamas sempre que proferia o seu nome.

Glaedr confiou o seu coração dos corações a Eragon e a Saphira, e eles regressaram aos Varden, enquanto Glaedr e Oromis se reuniam aos outros da sua espécie para atacarem o Norte do Império.

Durante o cerco de Feinster, Eragon e Arya encontraram três feiticeiros inimigos, um dos quais se transformou no Espetro Varaug, mas Arya conseguiu matá-lo com a ajuda de Eragon.

Enquanto isso, Oromis e Glaedr lutavam com Murtagh e Thorn. Porém, Galbatorix controlou a mente de Murtagh, servindo-se do seu braço para matar Oromis, enquanto Thorn eliminava Glaedr.

Apesar da vitória dos Varden em Feinster, Eragon e Saphira choraram a morte do seu mestre, Oromis. Porém os Varden seguiram em frente e marcham, neste momento, no coração do Império, rumo à capital, Urû’baen, onde Galbatorix os espera, altivo e confiante, pois a sua força é a força de todos os dragões.

A BRECHA

O dragão Saphira rugiu e os soldados diante dela encolheram-se.

– Digam comigo! – gritou Eragon, levantando Brisingr acima da cabeça e erguendo-a bem alto no ar, para que todos a vissem. A espada azul irradiou um brilho, intenso, iridescente, em contraste absoluto com a parede de nuvens negras que se estava a formar a Oeste. – Pelos Varden!

Uma flecha passou perto dele com um zunido, mas ele não lhe deu importância.

Os guerreiros reunidos na base do amontoado de entulho, em cima do qual se encontravam Eragon e Saphira, responderam-lhe em uníssono, gritando a plenos pulmões:

– Pelos Varden! – estrondearam, brandindo as suas armas e subindo, de imediato, pelos blocos de pedra caídos.

Eragon virou costas aos homens. Do outro lado do amontoado de pedras havia um grande pátio. Cerca de duas centenas de soldados do Império estavam reunidos no interior. Atrás deles erguia-se uma fortaleza escura, com janelas estreitas como fendas e várias torres quadradas; a mais alta tinha uma lanterna acesa numa das salas superiores. Eragon sabia que Lord Bradburn, o governador de Belatona – a cidade que os Varden queriam conquistar e pela qual lutavam há longas horas – estava algures dentro da fortaleza.

Eragon gritou e saltou da pilha de cascalho, em direção aos soldados. Os homens recuaram atrapalhadamente, embora mantivessem as lanças e os piques apontados para a brecha irregular que Saphira abrira na muralha exterior do castelo.

Eragon torceu o tornozelo direito ao cair, aterrando de joelhos e apoiando-se no chão com a mão que empunhava a espada.

Um dos soldados aproveitou para correr para fora da formação e tentou golpear a garganta exposta de Eragon com a lança.

Eragon aparou o golpe com um movimento brusco do pulso, brandindo Brisingr com demasiada rapidez para os olhos de um humano ou de um elfo. Ao aperceber-se do seu erro, o soldado empalideceu de pavor e tentou fugir, mas conseguiu apenas mover-se uns escassos centímetros antes de Eragon o atacar e atingir no ventre.

Saphira saltou para o pátio, atrás de Eragon, expelindo um jato de chamas azuis e amarelas. Ele baixou-se, firmando as pernas, quando o dragão embateu no chão pavimentado. Todo o pátio estremeceu com o impacto. Grande parte das lascas de vidro que compunham um grande mosaico colorido, em frente da fortaleza, soltaram-se e voaram rodopiando pelo ar como moedas a ressaltarem num tambor. Lá em cima, duas portadas de uma janela do edifício abriram-se e fecharam-se ruidosamente.

Arya acompanhou Saphira e os seus longos cabelos negros ondularam selvaticamente em torno do rosto angular, ao saltar da pilha de cascalho. Tinha os braços e o pescoço salpicados de sangue e a lâmina da espada manchada de sangue seco. Ao aterrar no pátio, os seus sapatos produziram um ruído suave de cabedal a roçar na pedra.

A sua presença encorajou Eragon, pois era quem mais desejava ter junto de si e de Saphira, a lutar. Considerava-a a parceira perfeita para o proteger.

Sorriu-lhe brevemente e Arya retribuiu-lhe de igual modo, com uma expressão feroz e jovial. Em combate a sua postura reservada dava lugar a uma abertura que raramente revelava noutros momentos.

Eragon escondeu-se atrás do escudo ao ver surgir uma cortina ondulante de chamas azuis entre eles. Por baixo do aro do elmo viu Saphira banhar os soldados encolhidos numa torrente de chamas que fluíam em torno deles, sem contudo lhes tocar.

Uma série de archeiros nas ameias da fortaleza dispararam uma saraivada de flechas a Saphira. O calor por cima dela era de tal forma intenso que algumas das flechas incendiaram-se em pleno ar, nada restando delas para além de cinzas. As outras foram desviadas pelos feitiços de proteção que Eragon erguera em torno de Saphira. Uma flecha perdida ricocheteou no escudo de Eragon, com um ruído surdo, amolgando-o.

A coluna de chamas envolveu, de súbito, três dos soldados, matando-os tão rapidamente que estes não tiveram sequer tempo para gritar. Os outros soldados agruparam-se no centro do inferno de chamas. As pontas das lanças e os piques refletiam clarões de luz azul-clara.

Por muito que tentasse, Saphira não conseguia sequer chamuscar os sobreviventes, acabando por desistir de o fazer e cerrando definitivamente as mandíbulas com um estalido seco. Na ausência do fogo, o pátio ficou assustadoramente silencioso.

Eragon deduziu que, tal como antes, quem concedera os feitiços de proteção aos soldados devia ser um feiticeiro hábil e poderoso. “Teria sido Murtagh?”, pensou. Se assim fosse, porque não estava ele ali com Thorn a defender Belatona? Galbatorix não se preocupa em manter o controlo das suas cidades?

Eragon correu para diante, cortando o topo de uma dúzia de alabardas com um único golpe de Brisingr, tão facilmente como quando cortava a cabeça das sementes dos talos de cevada, em criança. Golpeou o soldado mais próximo no peito e cortou-lhe a cota de malha como se fosse feita de pano fino. O sangue jorrou em torrente. Eragon atingiu o soldado seguinte, golpeou o soldado à sua esquerda com o escudo e atirou-o contra três dos seus companheiros, derrubando-os.

As reações dos soldados pareciam-lhe lentas e desajeitadas, enquanto se movia por entre as suas hostes, golpeando-os impunemente. Saphira envolvera-se num combate à sua esquerda – golpeando os soldados no ar, com as enormes patas, chicoteando-os com a cauda de espigões, mordendo-os e matando-os com uma sacudidela da cabeça. Enquanto isso, à sua direita, Arya era como uma mancha de movimento e cada golpe da sua espada assinalava a morte de um vassalo do Império. Quando Eragon se virou para se esquivar de duas lanças, viu que Blödhgarm, o elfo coberto de pelo, e os outros onze elfos destacados para o proteger a ele e a Saphira o seguiam de perto.

Mais atrás, os Varden entravam aos magotes no pátio, através da brecha na muralha exterior do castelo, mas decidiram não atacar, pois era demasiado perigoso aproximarem-se de Saphira. Nem ela nem Eragon ou os elfos precisavam de ajuda para se desembaraçarem dos soldados.

Pouco depois, o combate separou Eragon de Saphira, levando-os para extremos opostos do pátio, mas Eragon não estava preocupado. Mesmo sem as suas proteções Saphira estava mais do que apta a derrotar um grupo de vinte ou trinta humanos, sozinha.

Uma lança resvalou no escudo de Eragon, ferindo-lhe o ombro, e Eragon virou-se para o seu atacante, um homem enorme cheio de cicatrizes, sem os dentes da frente do maxilar inferior, e correu na direção dele. O homem tentou tirar uma adaga do cinto, mas no último instante, Eragon torceu-se, retesou os braços e o peito, batendo no esterno do homem com o ombro dorido.

O soldado foi projetado vários metros para trás, com a força do impacto, e caiu agarrado ao coração.

Depois, uma saraivada de flechas de penas negras precipitou-se sobre eles, matando ou ferindo muitos dos soldados. Eragon escondeu-se para se proteger dos projéteis, cobrindo-se com o escudo, embora estivesse confiante de que a sua magia o iria proteger. Não seria bom tornar-se descuidado, pois qualquer feiticeiro inimigo poderia disparar uma flecha encantada, capaz de penetrar nas suas proteções.

Um sorriso amargo desenhou-se nos lábios. Os archeiros, lá em cima, tinham percebido que a sua única esperança de vitória era matar Eragon e os elfos, independentemente do número de homens que tivessem de sacrificar.

“Demasiado tarde”, pensou Eragon, com uma satisfação sinistra. Deviam ter abandonado o Império enquanto ainda podiam.

O violento e ruidoso ataque das flechas, permitiu-lhe descansar, um momento que acolheu de bom grado. O ataque à cidade começara ao romper do dia e ele e Saphira tinham passado todo o tempo na frente de batalha.

Assim que as flechas cessaram, Eragon passou Brisingr para a mão esquerda, apanhou uma das lanças dos soldados e arremessou-a aos archeiros, que estavam doze metros acima. Como já antes concluíra, era necessário ter uma prática considerável para arremessar lanças com precisão, por isso não o surpreendeu não atingir o homem ao qual a apontara. O que o surpreendeu foi o facto de não atingir nenhum dos archeiros alinhados nas ameias. A lança passou por eles e estilhaçou-se na muralha do castelo, por cima da sua cabeça. Os archeiros riram-se e desdenharam dele, fazendo-lhe gestos grosseiros.

Um movimento rápido na sua visão periférica chamou-lhe a atenção e ele virou-se ainda a tempo de ver Arya arremessar a sua lança aos archeiros e empalar dois que estavam lado a lado. Arya apontou depois para os homens com a espada e disse:

– Brisingr! – e a lança irrompeu em chamas verde-esmeralda.

Os archeiros recuaram para longe dos cadáveres em chamas e, fugiram das ameias como se fossem um só, aglomerando-se junto das entradas que conduziam aos andares de cima do castelo.

– Isso não é justo – disse Eragon. – A minha espada desata a arder como uma fogueira sempre que uso esse feitiço.

Arya olhou-o com um ar vagamente divertido.

A luta prosseguiu durante mais alguns minutos, durante os quais os soldados que restavam, renderam-se ou tentaram fugir.

Eragon permitiu que os cinco homens que tinha diante de si fugissem, pois sabia que não iriam longe. Depois de um rápido exame aos corpos estendidos em seu redor, para confirmar se estavam de facto mortos, olhou para o outro lado do pátio. Alguns dos Varden tinham aberto o portão da muralha exterior e estavam a transportar um aríete ao longo da rua que conduzia ao castelo. Outros reuniam-se em filas irregulares junto à porta da fortaleza, prontos para entrar no castelo e defrontar os soldados no interior. Entre eles estava Roran, o primo de Eragon, a gesticular com o martelo que trazia sempre consigo, enquanto dava ordens ao destacamento que comandava. Saphira estava agachada sobre os cadáveres das suas vítimas, do lado oposto do pátio, com um perfeito caos em seu redor. Tinha gotas de sangue agarradas às escamas semelhantes a jóias. As manchas vermelhas contrastavam assombrosamente com o azul do seu corpo. Atirou a cabeça espinhosa para trás e rugiu triunfante, abafando o alarido da cidade com a ferocidade do seu grito.

Depois, Eragon ouviu a trepidação de engrenagens e correntes, no interior do castelo, seguida do ruído de pesadas traves de madeira a arranharem umas nas outras, ao serem puxadas para trás. Os ruídos chamaram a atenção de todos para as portas da fortaleza.

As portas separaram-se, abrindo com um estrondo seco. Uma espessa nuvem de fumo oriunda das tochas acesas no interior ondulou para o exterior, provocando tosse aos Varden que estavam mais próximos e obrigando-os a cobrir o rosto. Algures, nas profundezas da escuridão, ouviu-se o matraquear de cascos ferrados nas pedras do pavimento, e depois um cavalo e um cavaleiro irromperam do meio do fumo. O cavaleiro empunhava algo na mão esquerda que Eragon, a princípio, julgou ser uma lança vulgar, mas depressa reparou que era feita de um estranho material verde e tinha uma lâmina serrilhada, forjada num padrão desconhecido. Um ligeiro brilho envolvia a ponta da lança, uma luz pouco natural que denunciava a presença de magia.

O cavaleiro puxou pelas rédeas e guiou o cavalo na direção de Saphira que se empinou nas patas traseiras, preparando-se para desferir um terrível golpe mortal com a pata dianteira direita.

A preocupação dominou Eragon. O cavaleiro parecia demasiado confiante e a lança era demasiado diferente e assustadora. Embora estivesse supostamente protegida pelas suas defesas, Eragon tinha a certeza de que Saphira corria perigo de vida.

“Não vou conseguir alcançá-la a tempo”, concluiu. Dirigiu os seus pensamentos para o cavaleiro, mas o homem estava de tal forma concentrado na sua missão que nem sequer deu pela presença de Eragon, e sua concentração inabalável permitiu apenas que Eragon acedesse superficialmente à sua consciência. Fechando-se em si mesmo, Eragon reviu meia dúzia de palavras da língua antiga e compôs um feitiço simples para imobilizar o cavalo de guerra, que avançava a galope. Era um ato de desespero, pois Eragon não sabia se o cavaleiro também era feiticeiro, nem que precauções tomara para evitar ser atacado por magia – mas não estava disposto a ficar ali parado, estando a vida de Saphira em perigo.

Encheu os pulmões de ar, recordando a si mesmo a pronunciação correta de alguns sons mais difíceis na língua antiga, e depois abriu a boca para proferir o feitiço.

Foi rápido, mas os elfos foram ainda mais rápidos, e antes que ele conseguisse proferir uma única palavra, um frenesi de cânticos baixos explodiu atrás de si, com várias vozes sobrepostas a entoarem uma melodia dissonante e inquietante.

– “Mäe” – conseguiu ainda dizer, mas entretanto a magia dos elfos produziu efeito.

O mosaico em frente do cavalo estremeceu e moveu-se, e as lascas de vidro fluíram como água. Abriu-se uma longa fenda no chão, uma enorme fissura de profundidade indefinida. Relinchando ruidosamente, o cavalo mergulhou no buraco e empinou-se para a frente, partindo as patas dianteiras.

Enquanto o cavalo e o cavaleiro caíam, o homem montado na sela, puxou o braço para trás e atirou a lança fluorescente na direção de Saphira.

Saphira não conseguia correr nem esquivar-se, por isso sacudiu uma pata na direção do dardo, esperando desviá-lo. Contudo, falhou – por escassos centímetros – e Eragon, horrorizado, viu a lança cravar-se noventa centímetros ou mais no peito de Saphira, mesmo abaixo da clavícula.

Um véu palpitante de raiva toldou-lhe a visão e Eragon recorreu a toda a energia que tinha armazenada – no corpo, na safira embutida no punho da espada, nos doze diamantes escondidos no cinto de Beloch, o Sábio, preso à cintura, e ainda à imensa energia armazenada no interior de Aren, o anel dos elfos, que lhe ornamentava a mão direita – preparando-se para obliterar o cavaleiro, independentemente do risco.

Contudo, conteve-se quando Blödhgarm apareceu e saltou sobre a pata dianteira de Saphira. O elfo atirou-se para cima do cavaleiro como uma pantera a atacar um veado, derrubando o homem de lado. Sacudindo ferozmente a cabeça, Blödhgarm rasgou a garganta do homem com os seus longos dentes brancos.

Um guincho de desespero avassalador emanou de uma janela alta, por cima da entrada aberta da fortaleza, seguida de uma explosão de chamas que projetou blocos de pedra de dentro do edifício. Os blocos aterraram no meio do grupo dos Varden, esmagando membros e torsos como se fossem ramos secos.

Eragon ignorou as pedras que se precipitavam no pátio e correu para Saphira, apercebendo-se de que Arya e os seus guardas o acompanhavam. Outros elfos mais próximos estavam já a agrupar-se em torno dela, examinando a lança que se projetava do seu peito.

– É grave…? Ela está… – disse Eragon, demasiado abalado para completar as frases. Desejava muito falar mentalmente com Saphira mas, enquanto os feiticeiros inimigos estivessem na área, não se atrevia a expor-lhes a sua consciência, não fossem os seus oponentes sondar os seus pensamentos e assumir o controlo do seu corpo.

Depois de uma espera aparentemente interminável, Wyrden, um dos elfos macho, disse:

– Podes agradecer ao destino, Aniquilador de Espetros, pois a lança não alcançou as veias e as artérias principais no pescoço. Apenas atingiu músculos e nós podemos recuperar músculos.

– Conseguem tirá-la? Têm algum feitiço que nos impeçam de a…

– Nós vamos tratar disso, Aniquilador de Espetros.

Com uma solenidade própria de sacerdotes reunidos diante de um altar, todos os elfos, à exceção de Blödhgarm, colocaram as palmas das mãos sobre o peito de Saphira e entoaram um cântico semelhante ao murmúrio fantasmagórico do vento por entre um aglomerado de salgueiros. Cantavam sobre calor e crescimento de músculos e tendões, sobre sangue palpitante e outros temas mais obscuros. Aparentemente com um enorme esforço, Saphira permaneceu na mesma posição durante todo o encantamento, embora fosse assolada por tremores que lhe sacudiam o corpo com apenas alguns segundos de intervalo. Um rasto de sangue escorreu-lhe do peito, junto à lança que lá se encontrava cravada.

Quando Blödhgarm se aproximou dele, Eragon olhou o elfo de relance. Tinha sangue seco no pelo do queixo e do pescoço, que já não estava azul-escuro mas sim negro cerrado.

– O que foi aquilo? – perguntou Eragon, apontando para as chamas que dançavam ainda na janela alta, por cima do pátio.

Blödhgarm, lambeu os lábios, expondo os seus caninos de gato antes de responder.

– Instantes antes do soldado morrer, eu consegui penetrar na mente dele e através dela, na mente do feiticeiro que o estava a ajudar.

– Mataste o feiticeiro?

– Digamos que o obriguei a matar-se. Normalmente não recorreria a uma exibição teatral tão extravagante, mas estava… irritado.

Eragon começou a andar mas depois deteve-se, ao ouvir Saphira soltar um longo gemido baixo, à medida que a lança deslizava do seu peito sem que ninguém lhe tocasse. As suas pálpebras estremeceram e ela inspirou repetidas vezes, superficialmente, enquanto os últimos quinze centímetros da lança emergiam do seu corpo. A lâmina serrilhada, com a auréola indistinta de luz, cor de esmeralda, caiu no chão e ressaltou nas pedras do pavimento, produzindo um ruído que mais parecia de cerâmica do que de metal.

Quando os elfos pararam de cantar e tiraram as mãos de Saphira, Eragon correu para o seu lado e tocou-lhe no pescoço. A sua vontade era consolá-la, dizer-lhe como ficara assustado, unir a sua consciência à dela mas, em vez disso, contentou-se em olhar para um dos seus olhos azuis, cintilantes e perguntar:

– Estás bem? – As palavras pareciam insignificantes comparadas com a profundidade das suas emoções.

Saphira respondeu, piscando o olho uma única vez. Depois baixou a cabeça e acariciou-lhe o rosto com uma delicada lufada de ar quente que soltou das narinas.

Eragon sorriu. Depois virou-se para os elfos e disse:

– “Eka elrun ono, älfya, wiol förn Thornessa” – agradecendo-lhes a ajuda na língua antiga. Os elfos que tinham participado na cura, incluindo Arya, fizeram uma vénia, colocando a mão direita sobre o peito, num gesto de respeito característico da sua raça. Eragon reparou que mais de metade dos elfos destacados para o proteger a ele e a Saphira estavam pálidos, fracos e vacilantes.

– Retirem-se e descansem – disse-lhes. – Ainda se matam se ficarem. Vamos, é uma ordem!

Embora Eragon tivesse a certeza de que a ideia de partir lhes desagradava, os sete elfos responderam:

– Como queiras, Aniquilador de Espetros. – Dito isto, retiraram-se do pátio, caminhando por cima dos cadáveres e do entulho. Mesmo no limite da sua resistência tinham uma aparência nobre e digna.

Eragon reuniu-se depois a Arya e a Blödhgarm, que estavam a examinar a lança, ambos com uma expressão estranha, como se não soubessem bem como reagir. Eragon baixou-se cautelosamente junto deles, para que nenhuma parte do seu corpo tocasse na arma. Olhou para as delicadas linhas gravadas em torno da base da ponta da lança e pareceu reconhecê-las, ainda que não soubesse ao certo porquê. Olhou para o punho esverdeado, feito de um material que não era madeira nem metal e, de novo, para o brilho suave que lhe lembrava as lanternas sem chama que os elfos e os anões usavam para iluminar as suas salas.

– Achas que isto é obra de Galbatorix? – perguntou Eragon. – Talvez ele concluísse que era preferível matar-me a mim e a Saphira em vez de capturar-nos. Talvez ele pense que nos tornámos uma ameaça.

Blödhgarm fez um sorriso desagradável.

– Eu não me enganaria a mim próprio com essas fantasias, Aniquilador de Espetros. Nós não passamos de um incómodo sem importância para Galbatorix. Se ele quisesse realmente matar-te a ti ou a qualquer um de nós, bastar-lhe-ia voar de Yrû’baen e defrontar-nos diretamente em combate, e nós tombaríamos diante dele como folhas secas antes de uma tempestade de inverno. Ele detém a força do dragão e ninguém consegue resistir ao seu poder. Além disso, não é fácil desviar Galbatorix dos seus propósitos. Poderá ser louco mas é igualmente engenhoso e, acima de tudo, determinado. Se ele quiser escravizar-te, lutará obsessivamente para alcançar esse objetivo, e nada o desencorajará a não ser o seu instinto de sobrevivência.

– Em todo o caso – disse Arya –, isto não é obra de Galbatorix, isto é coisa nossa.

Eragon franziu o sobrolho:

– Nossa? Os Varden não forjaram isto.

– Não os Varden, mas um elfo.

– Mas… – Eragon deteve-se, tentando encontrar uma explicação racional. – Mas nenhum elfo aceitaria trabalhar para Galbatorix. Prefeririam morrer a…

– Galbatorix não teve nada a ver com isto e, mesmo que tivesse, dificilmente daria uma arma tão rara e poderosa a um homem que não fosse capaz de zelar por ela. De todos as armas de guerra espalhadas por Alagaësia, esta é a que Galbatorix menos desejaria ver na nossa posse.

– Porquê?

Ronronando ligeiramente, Blödhgarm disse na sua voz cava e intensa:

– Porque é uma Dauthdaert, Eragon, Aniquilador de Espetros.

– E o seu nome é Niernen, a Orquídea – acrescentou Arya, apontando para as linhas gravadas na ponta, que Eragon percebeu depois tratarem-se de hieróglifos estilizados do singular sistema de escrita dos elfos – formas curvas e entrelaçadas que terminavam em pontas longas em forma de espinhos.

– Uma Dauthdaert? – Vendo Arya e Blödhgarm olharem-no com um ar incrédulo, Eragon encolheu os ombros, constrangido, pela sua falta de cultura. Frustrava-o que os elfos usufruíssem de décadas e décadas de estudo com os melhores académicos da sua raça, enquanto cresciam, e o seu próprio tio, Garrow nunca lhe tivesse ensinado sequer o seu alfabeto por não o considerar importante. – Eu só li coisas dessas em Ellesméra. O que é? Foi forjada durante a Queda dos Cavaleiros para ser usada contra Galbatorix e os Renegados?

Blödhgarm abanou a cabeça.

– Niermen é mais antiga, muito mais antiga que isso.

– As Dauthdaertya – disse Arya – nasceram do medo e do ódio que marcou os anos finais da nossa guerra com os dragões. Os nossos ferreiros e feiticeiros mais habilidosos forjaram-nas a partir de materiais que já não entendemos, imbuindo-as de encantamentos cujas palavras já não recordamos e batizando-as às doze com os nomes das mais belas flores – a mais terrível das incoerências – uma vez que as fizemos com um único propósito em mente: matar dragões.

Uma sensação de repulsa invadiu Eragon, ao olhar para a lança fluorescente.

– E mataram-nos?

– Os que estiveram presentes dizem que o sangue dos dragões choveu dos céus como um aguaceiro de verão.

Saphira deixou escapar um silvo alto e brusco.

Eragon olhou-a, por instantes, e viu pelo canto do olho que os Varden mantinham ainda as suas posições diante da fortaleza, à espera que ele e Saphira retomassem a dianteira da ofensiva.

– Todos pensavam que as Dauthdaertya tinham sido destruídas ou estavam irremediavelmente perdidas – disse Blödhgarm. – Obviamente que estávamos enganados. Niernen deve ter passado para as mãos da família Waldgrave e eles devem tê-la mantido escondida aqui, em Belatona. Creio que, quando penetrámos nas muralhas da cidade, Lord Bradburn perdeu a coragem e mandou buscar Niernen ao seu arsenal para te tentar deter a ti e a Saphira. Sem dúvida que Galbatorix ficaria absolutamente furioso se soubesse que Bradburn tentou matar-te.

Embora consciente de que tinham de se apressar, a curiosidade de Eragon não o deixava partir.

– Independentemente do facto de ser uma Dauthdaert, ainda não me explicaram por que razão Galbatorix não gostaria que nos apossássemos dela. – E fez um gesto em direção à lança. – O que tem Nierman de mais perigoso do que aquela lança, ali, ou até mesmo Bris… – Conseguiu conter-se antes de pronunciar o nome completo. – Ou a minha espada?

Foi Arya que respondeu.

– Não pode ser destruída pelos meios normais, o fogo não a afeta e é quase totalmente resistente à magia, como tu próprio viste. As Dauthdaertya foram concebidas para resistir a todos os feitiços que os dragões lançassem e para proteger quem as empunhasse desses feitiços – uma perspetiva desencorajante, se considerarmos o poder, a complexidade e a natureza inesperada da magia dos dragões. Não deve haver ninguém em Alagaësia com tantas proteções como Galbatorix e Shruikan, mas é possível que Niernen conseguisse penetrar nas suas defesas, como se estas não existissem sequer.

Eragon percebeu e foi invadido por uma enorme alegria.

– Temos de…

Um ruído interrompeu-o.

O som foi cortante e arrepiante como metal a arranhar pedra. Os dentes de Eragon vibraram em sintonia e ele tapou os ouvidos com as mãos, fazendo uma careta ao virar-se para tentar localizar a fonte do ruído. Saphira atirou a cabeça para trás e, mesmo sobre o estrépito, Eragon ouviu-a gemer de aflição.

Eragon varreu o pátio com o olhar, por duas vezes, antes de reparar numa ténue nuvem de pó a erguer-se ao longo da muralha da fortaleza, de uma racha de trinta centímetros que surgiu por baixo da janela enegrecida e parcialmente destruída, onde Blödhgarm matara o feiticeiro. Quando o ruído se intensificou, Eragon arriscou levantar uma mão que tapava o ouvido e apontar para a racha.

– Olha! – gritou a Arya, que acenou em sinal de reconhecimento. Eragon voltou a tapar o ouvido com a mão.

O ruído parou inesperadamente.

Eragon esperou alguns instantes, baixando depois lentamente as mãos e desejando por uma vez na vida que a sua audição não fosse tão sensível.

No instante em que o fez, a racha abriu-se mais –até ficar com vários metros de largura –, descendo rapidamente ao longo da muralha da fortaleza. Ao alcançar a pedra angular, por cima das portas do edifício, estilhaçou-a como um relâmpago, salpicando o chão de pedras. Todo o castelo rangeu e a parte da frente da fortaleza, desde a janela danificada à pedra angular, partida, começou a inclinar-se para fora.

– Fujam! – gritou Eragon aos Varden, embora os homens estivessem já a dispersar para ambos os lados do pátio, desesperados para sair debaixo da muralha em equilíbrio precário. Eragon deu um único passo em frente, com os músculos do corpo tensos, procurando sinais de Roran, algures no meio da turba de guerreiros.

Por fim viu-o, encurralado atrás do último grupo de homens que estava junto da porta, a gritar-lhes furiosamente, mas sem conseguir fazer-se ouvir no meio de todo aquele alvoroço. Depois a muralha moveu-se e inclinou-se alguns centímetros – afastando-se ainda mais do resto do edifício – bombardeando Roran com pedras, fazendo-o perder o equilíbrio e forçando-o a cambalear para trás, por baixo dos beirais da porta.

Quando Roran se endireitou, o seu olhar cruzou-se com o de Eragon e este viu nele uma centelha de medo e de desespero, seguida de imediato por uma expressão de resignação, como se Roran soubesse que não conseguiria alcançar a segurança a tempo, por muito depressa que corresse.

Um sorriso amargo desenhou-se nos lábios de Roran.

E a muralha caiu.

A QUEDA DO MARTELO

–Não! – gritou Eragon, ao ver a muralha da fortaleza desmoronar-se ruidosamente, soterrando Roran e cinco outros homens sob um amontoado de pedra com seis metros de altura e inundando o pátio com uma nuvem escura de pó.

Eragon gritou tão alto que lhe faltou a voz e sentiu uma camada pegajosa de sangue, com sabor a cobre, no fundo da garganta, inspirando e dobrando-se sobre si a tossir.

– Vaetna – arquejou ele, acenando com a mão. A espessa cortina de pó cinzento apartou-se com um ruído semelhante ao restolhar de seda, descobrindo a parte central do pátio. Eragon estava de tal forma preocupado com Roran, que mal reparou na energia que o feitiço lhe roubara.

– Não, não, não, não – murmurou Eragon. “Ele não pode estar morto. Não pode, não pode, não pode…” Eragon continuou a repetir mentalmente a frase como se a repetição pudesse transformá-la em realidade. Mas, quanto mais a repetia mais esta lhe parecia uma oração para o mundo em geral e não constatação de um facto ou de uma esperança.

Arya e os outros guerreiros dos Varden, diante dele, tossiam e limpavam os olhos com as palmas das mãos. Muitos estavam curvados para a frente como se esperassem ser atingidos, outros estavam pasmados a olhar para a fortaleza danificada. Os escombros do edifício espalharam-se pelo meio do pátio, encobrindo o mosaico. Duas divisões e meia do segundo andar do forte e uma no terceiro – a sala onde o feiticeiro morrera tão violentamente – estavam expostas aos elementos. As salas e a mobília pareciam sujas e bastante decrépitas à luz do sol. No interior, meia dúzia de soldados armados de bestas, recuaram atrapalhadamente do abismo à beira do qual se encontravam agora, precipitando-se pelas portas, ao fundo das divisões, aos empurrões e encontrões, e desaparecendo nas profundezas da fortaleza.

Eragon tentou calcular o peso de um bloco de pedra na pilha de escombros; devia pesar centenas de quilos. Se ele, Saphira e os elfos trabalhassem em conjunto, estava certo que conseguiriam remover as pedras com magia, mas o esforço deixá-los-ia fracos e vulneráveis. Além disso, iria demorar demasiado tempo. Eragon pensou por instantes em Glaedr – o dragão dourado seria suficientemente forte para erguer toda aquela pilha de uma só vez – mas o tempo era crucial e ele demoraria demasiado tempo a recolher o Eldunarí de Glaedr. De qualquer forma, Eragon sabia que poderia nem sequer conseguir convencer Glaedr a falar com ele, muito menos a ajudar a salvar Roran e os outros homens.

Depois ele visualizou Roran, tal como este aparecera antes do dilúvio de pedras e de pó o esconder da sua visão, debaixo dos beirais da porta de entrada do forte, e deu um salto, percebendo o que fazer.

– Saphira, ajuda-os! – gritou Eragon, largando o escudo e correndo para diante.

Ouviu Arya dizer algo na língua antiga atrás de si – uma frase curta, tipo “Esconde isto!” – acompanhando-o depois de espada em punho, pronta para lutar.

Ao alcançar a base da pilha de escombros, Eragon saltou o mais alto que pôde, aterrando num só pé sobre a face inclinada de um bloco. Depois voltou a saltar, atirando-se sucessivamente de um ponto para o outro, como um cabrito-montês a escalar a encosta de um desfiladeiro. Detestava a ideia de deslocar os blocos, mas subir a pilha era a forma mais rápida de alcançar o seu destino.

Saltando uma última vez, Eragon alcançou a beira do segundo andar e correu pela sala. Empurrou a porta, à sua frente, com tanta força que lhe partiu o trinco e as dobradiças, projetando-a pelo ar, contra a parede do corredor, por trás desta, e rachando as pesadas pranchas de carvalho.

Ele correu pelo corredor, mas os seus passos e a sua respiração pareciam-lhe estranhamente abafados, como se tivesse os ouvidos cheios de água.

Ao aproximar-se de uma porta aberta, abrandou. Através da abertura viu um escritório com cinco homens armados, a apontarem para um mapa e a discutirem. Nenhum deles reparou em Eragon.

Continuou a correr.

Dobrou velozmente uma esquina e chocou com um soldado que vinha na direção contrária. Ao embater com a testa na borda do escudo do homem, Eragon viu manchas vermelhas e amarelas. Agarrou-se ao soldado e ambos cambalearam para trás e para diante ao longo do corredor, como um par de bailarinos bêbados.

Enquanto tentava recuperar o equilíbrio, o soldado praguejou:

– O que se passa contigo? Maldito sejas três vezes – disse. Depois olhou para o rosto de Eragon e arregalou os olhos. – Tu?

Eragon cerrou o punho direito e esmurrou o homem na barriga, mesmo abaixo da caixa torácica. O golpe ergueu o homem do chão e projetou-o contra o teto.

– Eu mesmo – anuiu Eragon, quando o homem tombou no chão, inerte.

Eragon continuou a percorrer o corredor. A sua pulsação, já de si acelerada, parecia duas vezes mais rápida, desde que entrara na fortaleza; era como se o coração fosse explodir do peito.

“Onde estará?”, pensou, nervosamente, olhando através de outra entrada. Mas viu apenas uma sala vazia.

Finalmente, ao fundo de uma sombria passagem lateral, avistou uma escada em caracol e desceu os degraus cinco a cinco, sem se preocupar com a sua segurança enquanto descia até ao primeiro andar, parando apenas para desviar um archeiro sobressaltado do seu caminho.